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Aprendendo a boa política nos grêmios estudantis

"São espaços privilegiados de formação", afirma professor.
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29.11 2017

Uma vez, um cara disse que “o pior analfabeto é o analfabeto político”. O nome dele era Bertolt Brecht, um dramaturgo alemão que morreu em 1956. A participação política – e quando falamos em política não falamos em siglas e partidos, mas em debate de ideias – é algo que podemos exercitar desde cedo. “Essa participação deve ser ensinada para depois evitar o que nós estamos vendo na história brasileira. O brasileiro não sabe votar, por exemplo”, recomenda o professor do curso de Direito da Universidade Feevale Henrique Keske. Proporcionar experiências de atuação política, seja em uma posição de administração, seja em uma posição de voto, é um dos deveres dos grêmios estudantis, nosso assunto de hoje.

“Precisamos resgatar a noção de política da Grécia antiga. Da política como amor pela coisa pública, pelo que é de todos”, defende Henrique, e é nesse sentido que ele defende o desenvolvimento da noção de participação política por meio dos grêmios: “São locais privilegiados para essa formação. Assim como os estudantes têm disciplinas de conhecimento, de desenvolvimento intelectual, de desenvolvimento físico, eles também precisam desenvolver sua participação política.”

Ok. Os estudantes podem criar suas chapas, fazer campanhas, ser eleitos e participar do grêmio de suas escolas. E quem ficou “de fora”? Quem votou, mas não se candidatou? E quem não ganhou a eleição? Enxergar essas pessoas – possibilitando que elas sejam integradas ao processo – é um dos principais trabalhos de um grêmio estudantil, segundo o professor Henrique. “O grêmio precisa organizar formas de participação desses estudantes. Por exemplo, quando um evento é organizado, aproveitar a oportunidade e trazer todos para a participação política, para o diálogo”, recomenda. Para ele, o ideal é que todos possam apresentar suas opiniões, e que elas sejam submetidas ao voto: “Temos um problema X, vamos ouvir todos os interessados, conversar sobre essas ideias e submetê-las ao voto.”

Diálogo, respeito e voto

O professor Henrique defende que a boa atividade política – cada vez mais rara, cá pra nós – é feita com diálogo. “Ela pressupõe respeito pelo outro. Se eu ouço a ideia de alguém, posso não concordar, mas devo respeitar", defende. Para ele, depois de ouvidas e debatidas todas as ideias, deve haver o voto. "O voto tem que ser ensinado. Precisamos ouvir a todos e depois votar nas suas ideias. No Brasil não é assim! Não votamos em pessoas, não em ideias. Votamos no bonito, no simpático, na gostosa... O brasileiro não sabe votar!"

Grêmios Estudantis do Pio XII Otimismo, crescimento e participação dos colegas

”Eu queria tomar a frente, queria representar os estudantes”, afirma Gabriella Utzig, de 15 anos, (no centro) presidente da gestão eleita para comandar o grêmio estudantil do Pio XII, o Gepio, no ano que vem. “Para elaborar nossas propostas, fizemos uma análise de outras escolas. A gente foi vendo o que o pessoal achava legal, o que não achava legal. Acredito que o grêmio pode fazer mais do que promover eventos e colocar música no recreio”, afirma: “São ideias bem simples, mas acreditamos que trarão benefícios aos estudantes. Vamos, por exemplo, colocar absorventes no banheiro feminino. E, para os recreios, vamos criar uma playlist, para que todos possam contribuir, escolhendo as músicas que vão tocar.”

“Foi uma experiência muito boa, aprendi muita coisa”, afirma Tulla Carvalho, de 15 anos, (no centro) integrante da gestão de 2017 do Gepio: “Aprendi a não ser mais tão tímida, a falar em público.”

Grêmios Estudantis do Pio XII Para Gabriela Ramos (à esquerda), colega de Tulla no Gepio, o crescimento também veio com uma noção melhor do que é preciso para tirar um projeto do papel: “A gente começou a ter uma noção melhor do que dá pra fazer.” Além disso, uma das unanimidades afirmadas pelo grupo que deixa a gestão neste final de ano é uma maior compreensão da necessidade de ouvir as opiniões alheias. “Aprendemos a pensar mais nos outros, no que eles gostariam e no que seria bom para eles”, explica Tulla: “Sempre fizemos tudo pensando no bem dos nossos colegas.”

Orgulho e mudança

“É uma honra ter participado do grêmio. Não falo só por mim, mas por todas as pessoas que estavam nele e que ajudaram nos projetos que conseguimos fazer ao longo do ano”, comemora Helena Martins de Souza, presidente do Grêmio Estudantil Maio de 68, da Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha. “Foi uma experiência extremamente prazerosa. Tivemos momentos de estresse, momentos em que quebramos a cabeça para tentar resolver problemas em nome dos estudantes. Ver os colegas felizes com o que nós fizemos é extremamente positivo.” Uma das ações da qual os alunos se orgulham mais é a aprovação de uma nova pintura nos murais das paredes frontais da escola. “É algo muito positivo. Mostra a identidade e a voz dos estudantes. Também organizamos a primeira parada LGBT da escola, um avanço muito grande com envolvimento de professores, funcionários e alunos.”