Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
#APP

Sarahah: diversão ou cyberbullying?

App de mensagens anônimas é um dos mais baixados no país.
Publicidade
curtiu? compartilhe
07.08 2017

Cyberbullying. O Sarahah é o app mais baixado no momento no Brasil. Com ele é possível ter um “feedback honesto” de amigos e colegas. Funciona como uma rede social qualquer, a diferença é a interação que é feita de forma anônima: você recebe mensagens e não sabe de quem veio.

Não é o primeiro app a fazer isso: já tivemos o Formspring, o ASK.Fm, Curious Cat e o Secret. Esse último chegou a ser descontinuado em 2015 após acusações de incentivo ao cyberbullying. A questão do dia é: pra que serve esse app e o que ele diz sobre a gente. O Sarahah afirma, em seu site oficial, que irá ajudá-lo a descobrir seus pontos fortes e permitir que seus amigos sejam honestos com você. Conversamos com a professora de Psicologia da Universidade Feevale Claudia Maria Teixeira Goulart para entender melhor como tudo isso pode funcionar dentro da nossa cabeça.

“As redes sociais, cada vez mais, vêm se constituindo em um espaço para que as pessoas exponham sua imagem, suas ideias, e busquem, de alguma forma, aceitação ou reconhecimento. O interesse por este aplicativo parece vir muito daí, da busca por um olhar, por aceitação”, explica Claudia: “Quando o outro me manda uma mensagem, me avalia, é sinal de que estou sendo olhado, de que alguém está me notando.” Segundo ela, a prática toda tem um pouco como do “falem bem, falem mal, mas falem de mim”.

Melhor não...

O objetivo inicial do Sarahah não é o cyberbullying, obviamente. O próprio app se protege contra esse tipo de acusação, pedindo que o usuário deixe “uma mensagem construtiva” na tela de postagem.

O anonimato, no entanto, facilita que ele seja usado de diferentes formas, sustenta Claudia: “Inclusive para agredir o outro, com a certeza de que nada pode vir a ser feito a respeito. Mesmo que as mensagens não fiquem expostas publicamente, o efeito das palavras, sejam elas construtivas ou não, fica registrado para quem as recebe.”

A verdadeira questão por trás do aplicativo

Então você criou uma conta e começou a receber mensagens anônimas. Existe a possibilidade de que nem todas as pessoas sejam gentis. A professora Claudia acredita que o anonimato pode provocar um certo “colorido” no conteúdo das mensagens: “É um veículo para que as pessoas possam expressar, de forma anônima e, portanto, muitas vezes exagerada e descontrolada, a opinião sobre o outro.”

Diante disso, como lidar com um possível feedback negativo? Para Claudia, a pergunta é outra e deve ser respondida antes de a gente começar a usar o app: “Por que preciso deste retorno? Que respostas preciso buscar no outro sobre mim que eu mesma não posso encontrar?” A busca por estas respostas pode esconder uma instabilidade que corre o risco de ser abalada pelo uso do app.

“Possivelmente este tipo de aplicativo vai ser procurado justamente por pessoas com fragilidades emocionais que precisam da opinião do outro para ter respostas sobre si mesmos. Algumas vezes pessoas são tão críticas consigo mesmas que acabam buscando eco nos outros para referendar seu olhar por vezes depreciativo”, explica Claudia. O uso, nesse caso, pode ser prejudicial, pois feedbacks negativos podem ter um impacto mais forte.

De onde ele veio, afinal?

Criado pelo árabe Zain al-Abidin Tawfiq, o Sarahah nasceu com a proposta de ser usado para fins profissionais. O desenvolvimento começou em 2016, era só um site, sem um app para celular. Segundo Zain – em entrevista ao site Mashable – a ideia era criar uma ferramenta na qual empregados pudessem dar feedback honesto aos seus empregadores. “Se há um problema no local de trabalho, as pessoas precisam comunicar isso com franqueza aos seus chefes”, explica.

Zain logo percebeu que o app poderia bombar também fora do ambiente corporativo. Amigos poderiam enviar mensagens honestas uns para os outros. Ele enviou o app para um amigo com grande influência na rede, e o serviço conseguiu alguns milhares de usuários em poucos dias, iniciando um caminho de sucesso em países de língua árabe.

Foi então que Zain decidiu criar um aplicativo de celular para o Sarahah. Pouco depois de lançado, o app se espalhou rapidamente. Uma atualização no Snapchat – permitindo o compartilhamento de links – aumentou ainda mais a popularidade do app. Em poucos dias, ele chegou ao primeiro lugar na App Store, batendo Facebook, Instagram e o próprio Snapchat.